Sobre o artigo
GINGA mostra que crescimento, governança e responsabilidade socioambiental podem avançar na mesma direção.
Uma agência de publicidade não costuma ser o primeiro lugar onde se procura por métricas de descarbonização. A GINGA, independente e paulistana, resolveu tornar-se exatamente isso. A empresa acaba de conquistar a certificação B Corp com nota 92,9 na Avaliação de Impacto B, quando a mediana das companhias que completam o questionário é 50,9 e o mínimo para o selo é 80. O número não é detalhe. Ele mede governança, relação com trabalhadores, comunidade, meio ambiente e clientes, e coloca a GINGA entre as primeiras agências do país a receber a chancela da B Lab, organização que audita desempenho socioambiental e transparência jurídica.
O selo chega junto de uma expansão consistente. Nos últimos cinco anos, a GINGA cresceu em média 30% ao ano. Fechou 2024 com receita operacional líquida de R$ 28,76 milhões e encerrou o exercício seguinte com faturamento de R$ 45 milhões. A meta declarada é chegar a R$ 70 milhões até 2029. Fundada em 2002, a agência conecta hoje mais de 700 profissionais no Brasil e no exterior.
A certificação B Corp exige uma contrapartida legal que a distingue de selos ambientais comuns. A empresa altera seu contrato social para considerar formalmente trabalhadores, fornecedores, comunidades e meio ambiente em pé de igualdade com o acionista. Não se avalia um produto ou um processo isolado, mas a companhia inteira. Na América Latina, o processo é conduzido pelo Sistema B, parceiro da B Lab que opera no Brasil desde 2013. A base brasileira de empresas certificadas é a segunda maior do continente, atrás apenas da Argentina.
Pedro Del Priore, cofundador e CEO da agência, situa o movimento num intervalo específico. "A certificação B faz parte de um processo de transformação operacional acelerado nos últimos 3 anos, mas que já tinha raízes em um mindset de gestão humanizada e consciente, que sempre pautou a atuação da GINGA desde a sua fundação. Acreditamos que a grande transformação do mercado daqui para frente será cultural, e não apenas tecnológica. Mais do que comunicar, as marcas hoje são co-responsáveis pelos impactos que geram. A certificação reconhece uma mudança que já vinha sendo construída internamente. Nosso modelo busca integrar resultado de negócio com responsabilidade sistêmica", explica. A reorganização se orientou por um mapeamento de impacto ancorado em 10 dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.
A parte ambiental tem número auditável. Um estudo baseado no GHG Protocol aponta redução de cerca de 60% nas emissões de gases de efeito estufa em relação a operações centralizadas, resultado de um modelo distribuído que a agência batizou de "Colaboridade", uma arquitetura que combina colaboração estruturada, diversidade de repertório e inteligência estratégica. Desde 2024, a empresa faz inventário e neutralização de carbono, e adota diretrizes de descarbonização para produções e eventos. Recicla mais de 80% dos resíduos sólidos, contra uma média nacional próxima de 4%, e composta material orgânico que iria para aterro.
A frente social carrega os dados mais expressivos. As mulheres somam 73% do quadro total e 71% dos cargos de liderança. Pessoas LGBTQIA+ representam 42% dos colaboradores; pessoas pretas e pardas, 28%. A satisfação interna gira em torno de 90%, indicador que ganha peso num setor marcado por rotinas de estresse alto e rotatividade. A empresa mantém suporte em saúde mental, educação financeira e nutrição, além de incentivo à atividade física, e fixou metas de evolução até 2030, com políticas de equidade salarial.
Paulo Martinez, COO e cofundador, também coiniciador da comunidade GIRA, plataforma do Grupo GINGA que conecta profissionais da marketing economy e oferece capacitação em tecnologias emergentes, delimita o que a agência entende por diversidade. "Diversidade não se resume à representatividade. Ela se traduz em metodologias de escuta, espaço para experimentação e programas de desenvolvimento individual que respeitam ritmos e particularidades. Pertencer não deveria exigir encaixe, mas acolhimento", comenta.
Sobre o desenho operacional, Martinez encerra com a lógica que amarra o crescimento à certificação. "Quando a operação é desenhada com lógica sistêmica, o impacto positivo deixa de ser compensação e passa a ser consequência do modelo. Com a certificação B Corp, a GINGA reforça a estratégia de consolidar um modelo em que vitalidade, eficiência e crescimento sustentável operam de forma integrada, sinalizando um movimento mais amplo de transformação da indústria da comunicação."
O posicionamento se condensa numa frase que a agência repete: "BR não é 011, é +55". A ideia trata a diversidade cultural brasileira como ativo de criação, não como pano de fundo. A GINGA aposta que anunciantes passarão a exigir parceiros que combinem eficiência e responsabilidade auditada, e não apenas discurso. Os R$ 70 milhões projetados para 2029 dirão se a leitura estava correta.
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