Transformação digital e o divã das corporações

Artigo originalmente publicado no Adnews em 22/02/2016. Por Paulo Martinez, Chief Operating Officer da Agência Ginga.

Executivos de grandes empresas vivem uma insônia constante, fecham os olhos mas não conseguem dormir. Acionistas pressionam por resultados e cortes de custos. A fórmula de sucesso dos últimos anos já não funciona mais. Receitas e margens despencam, cabeças rolam a cada status meeting e ninguém sabe para onde correr, no entanto não param de correr. Caos instaurado.

Manda trazer todo mundo! Fazer pesquisa e benchmark, pedir para as 10 agências trabalharem integradas, trazerem inovação. Enquanto isso chama o Google e o Facebook, algo precisa ser feito! Nada funciona, todos continuam a correr, em círculos.

Com tanta coisa para fazer e sem saber por onde começar, as empresas e seus executivos entram no modo automático: operação, burocracia, metas, contrata, demite, faz concorrência com mais uma porção de agências. NovosChief Whatever Officers nascendo e morrendo todos os dias, e com eles suas receitas do mesmo rivotril digital.

Não cola, a insônia continua. Fecham os olhos para tudo mas não conseguem dormir.

O digital de ontem já é velho, ele se transmutou. Convergência online e offline, explosão da mobilidade, internet das coisas, social media, startups, big data... O novo digital é tudo isso e mais um muito que está por vir.

A transformação digital nas corporações deve começar por uma reforma íntima intensa, precisa fazer parte dos valores e cultura da empresa. Muitos querem fazer diferente mas não sabem como: contratam consultores externos, contratam talentos, compram outras empresas, mas no final do dia, continuam impondo a cultura velha neste novo mundo.

A seguir, listo alguns pontos para reflexão e quem sabe, auxílio aos tantos executivos que estão perdendo seu sono:

Foco nas pessoas: passada a era da informação, estamos na era do consumidor, são as pessoas no centro, não mais nossos egos. Uma empresa com cultura digital forte precisa ser obcecada por resolver os problemas dos seus consumidores, algo que as startups fazem com maestria. Não é a toa que metodologias como design thinking veem ganhando cada vez mais espaço, expandindo para campos como educação e bem estar social.

Tenha uma proposta de valor real: uma vez que você cria uma cultura de empatia e foca seu negócio nas pessoas, abre caminho para descobrir o real valor do seu negócio, um propósito. Lucro é consequência de um objetivo maior, algo que de fato melhore a vida dos seus consumidores.

Um caminho sem fim: entenda que o processo de transformação e maturidade digital nunca acabará, então ao invés de ter pressa, tenha um plano, comece agora e não pare nunca mais. Você deve investir em dois pilares principais: operação digital e experiência do consumidor, dos quais falarei logo abaixo.

Digitalize sua operação de negócios: Invista em tecnologias e plataformas que proporcionem automação, escala e inteligência. Atualmente temos a disposição diversos fornecedores de CRMMarketing tech e Ad tech, vá a campo, entenda o que é mais adequado para seu momento e experimente. Prefira modelos de contratos não engessados, onde se pague por mês ou por uso, se não gostou, troque e siga adiante.

Cuide bem dos seus dados: eles são a sua mina de ouro. Relatórios mil não dizem nada se não tiverem análises e insights acionáveis em tempo real. Além disso, proteja sua inteligência de dados, atualmente a maioria dos grandes anunciantes online instalam dezenas de tags de 3°s em suas propriedades e não têm a menor ideia de que estão abrindo sua informação mais valiosa para o mundo.

Proporcione uma experiência genuinamente positiva ao seu público: invista tempo e recurso para estar presente em todas as telas e momentos possíveis. Como? Conteúdo! Website, mobile apps, redes sociais, cada qual com seu devido objetivo: informação, serviço, entretenimento, o que for. Pensamento mobile e omnichannel para um consumidor que escolhe como e quando se relacionar com você, não o contrário.

Procure agir e pensar como uma startup: sua empresa não precisa ser pequena para montar times ágeis e cross funcionais, estude sobre lean startupbusiness model canvasvalue proposition design e comece a aplicar estes ensinamentos para construir, medir e evoluir seu trabalho em ciclos ágeis. Nada mais de ficar 1 ano em um projeto de website ou mobile app, prefira releases curtos e incrementais, cheios de testes a/b e ferramentas de analytics acopladas.

Vamos começar? Inicie avaliando o grau de maturidade digital da sua empresa. Faça um rápido diagnóstico analisando os principais temas abordados neste artigo, conforme exemplos: Marketing tech / Inteligência de dados / Canais de experiência com o público / Conteúdo / Cultura de gestão, etc. Para cada tema, liste os projetos a atacar e defina seu estágio de maturidade: (1) Construir, (2) Evoluir e otimizar, (3) Inovar e diferenciar. Consolide isso em uma matriz estratégica e parta para a ação!

Em um caminho sem volta e sem fim, é preciso começar e não parar nunca mais.