O Fim da Internet

Artigo originalmente publicado no Adnews em 28/08/2015. Por Andre Felipe, Chief Creative Officer da Agência Ginga

Acabei falando mais do que devia: soltei, entre um torresmo e uma bisteca, num daqueles almoços da agência que acabam em discussão (e eventualmente em aposta e às vezes em briga), que a internet ia acabar. O pessoal, entre um franguinho orgânico grelhado e um purêzinho de inhâme integral, já olhou pra mim com aquela cara de como assim?, aí eu lancei um ou outro argumento, e a ideia virou uma discussão. E, claro, uma aposta: se eu conseguisse provar minha teoria, ganhava um almoço.

E aqui estou, em plena era digital, com o desafio de provar que a internet já era.

Primeiro, uma breve historia da internet, pelo menos de acordo com a minha já ultrapassada experiência internética (ou seria internáutica?) ao longo desses últimos 30 anos.

Meu primeiro contato com o que se tornaria a internet foi um monitor de vídeo instalado no clube, ou na escola, com textos que iam se acumulando. Era um videotexto. Ou um BBS, de Bulletin Board System, serviço de informações em texto que chegavam em uma tela através de uma conexão telefônica. É, jovens, eu vi o embrião da Internet funcionando. (E daí você tira o quanto o Blue Bus –nascido de um BBS– é antigo. E pioneiro)! Fui testemunha da evolução da internet, vendo ela fazendo cada vez mais parte de nossos dia-a-dias. O "www". Os primeiros provedores, os primeiros browsers, portais, as primeiras ferramentas de busca. Coisas que consideramos banais hoje, tais como emails e chats, já foram importantes a ponto de serem protagonistas de thrillers e comédias românticas. Quem não se lembra de Assedio Sexual (Disclosure, 1998) ou Mensagem para Você (You've got mail, 1999)?  

No entanto, para mim a grande revelação veio em meados do ano 2000. Um jovem estagiário da agência em que eu trabalhava na época perguntou pro pessoal quem já tinha visto esse tal de Google. Eu não tinha. – Fala aí jovem, como se escreve? – G-O-O-G-L-E. Foi um choque. Me lembro de passar longas tardes na agência fazendo buscas aleatórias no Google, só para me impressionar com a rapidez, a quantidade e, principalmente, com a relevância dos resultados de busca. Pra mim, a internet como eu a conheço, hoje, começou alí.

E deslanchou à partir dalí. Orkut. Virou mania. Uma amiga nossa avisou que o Orkut não estava com nada: o negócio era um tal de Facebook. A internet virou social. O Blackberry transformou o celular em email, o iPhone transformou o celular em internet. Me lembro do primeiro vídeo que ví no Youtube, em 2004 ou 2005: um viral da Nike em que o Ronaldinho Gaúcho acertava, na sequencia, uns 5 chutes no travessão. Até hoje não sei se é real.

Assim, ao longo desse tempo, pra mim a internet já foi curiosidade, novidade, brincadeira, serviço. Virou social, viral, onipresente. A internet virou propaganda. E propaganda na internet, veja você, virou minha profissão. E eu aqui pensando em como justificar a teoria de que a Internet acabou – o que no fundo seria catastrófico para meu emprego atual. 

Tá na hora de buscar na internet. Primeiro o LinkedIn (por precaução). Depois, bora pro Google.

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O autocomplete do Chrome não é especialmente promissor:

The end of
The end of the world
The end of the headache
The end of the tour de france

Obviamente, inclusive por intrincadas questões contratuais, o Google não pode sair por aí dando de bandeja que a internet vai acabar, e sugestivamente propõe que, antes do fim da internet, ainda teremos que passar pelo fim do mundo, pelo fim das dores de cabeça e, claro, pelo fim do Tour de France. Inconformado pela superficialidade das primeiras sugestões, intrépidamente digitei The end of the internet e me surpreendi com o primeiro resultado no ranking de relevância do buscador, precisamente calculado por um complexo algorítmo que vale centenas de bilhões de dólares: o site "End of the Internet

Achei, de cara, genial: enquanto o site End of the Internet sugere que, agora que a internet acabou, você terá a oportunidade única de fazer coisas que nunca faria em condições normais, tais como ler um livro, plantar uma árvore, fazer trabalhos voluntários ou mesmo se apresentar pessoalmente para sua família, a página (calma, é fake) inicia uma tentativa de download do conteúdo da internet para seu computador. Tentativa essa frustrada pela falta de espaço disponível no seu HD. Em suma, o site propõe que você vá viver a sua vida, pois nunca vai dar conta de tanta informação. E eles têm razão.

O segundo resultado da lista revela o não menos genial "The End of the Internet", que aborda o suposto apocalipse digital sob outro ponto de vista: você, meu amigo internauta, que já entrou em provavelmente todos os sites de todos os servidores de todo o universo, chegou ao fim da linha. DEU POR HOJE. Você está no último site da internet. O mais intrigante, no entanto, está escondido em um discreto link, identificado no site como o verdadeiro fim da internet. Cliquei pra ver: o link me levou para a página da Amazon Web Services. Ou seja: para o Cloud.

Achei sinistro. Me pareceu que os caras que criaram a página sabem do que estão falando, ou seja, justamente o oposto do meu caso. Eles tem um ponto. Mas não se apavore, nem saia correndo atrás de um HD maior para seus backups: você ainda pode adquirir as diversas camisetas temáticas oferecidas pela página, ironicamente disponíveis para venda na própria Amazon.

A Internet continua sendo definida, pelo menos no Google ou na Wikipedia, como Rede Mundial de Computadores. A definição clássica. Não querendo ser especialista no assunto e nem precisando, pois nesse caso a definição é autoexplicativa, explico: a Internet –de acordo, repito, com a definição clássica– é uma rede de computadores e servidores interligados de modo que você, à partir do seu computador ou smartphone (eu ia falar terminal), possa acessar todas as informações disponíveis em servidores e computadores ao redor do mundo todo.

O problema é que a observação feita pelo site The End of The Internet me pareceu coisa séria: se a tendência é que os milhões de servidores do mundo migrem seus dados para o cloud da Amazon (escolhida como exemplo por seu potencial protagonismo nesse serviço em um futuro próximo), em breve a definição de Rede se tornará obsoleta. Estaremos acessando, diretamente e sem intermediários, meia dúzia de superservidores que acumularão todos os dados digitais disponíveis no mundo. Será que a Rede Mundial de Computadores vai acabar e vai virar Cloud? Se isso não lhe parece o fim da internet, admito que isso me parece o fim do mundo. Ou, no mínimo, uma elaborada trama da série 007

Afinal, parece que o algorítmo do Google acertou: primeiro o fim do mundo, depois as dores de cabeça, o Tour de France e, finalmente, o fim da internet. Questão de relevância.

Tenho um casal de filhos adolescentes. Ou seja, tenho em casa dois Digital Natives, termo criado em 2001 (meus filhos nasceram em 2000 e 2002) pelo cientista e educador Marc Prensky para definir a geração que já nasceu no mundo digital, em oposição aos Digital Migrants – eu, provavelmente você também, que vimos o mundo sem internet (?) e depois vimos a internet nascer como uma traquitana, se tornar uma novidade, uma utilidade e, ao longo desses últimos 30 e poucos anos, se tornar nossa maior fonte de informação, de comunicação e de relacionamentos, definindo a cultura do mundo em que vivemos e que, aos poucos, vamos tentando moldar e entender.

Sem muita expectativa (ou esperança, eu diria) de extrair do meu filho de 15 anos uma reflexão mais profunda sobre o tema, perguntei pra minha filha de 13 como ela definiria a internet. Ela começou meio daquele jeito ("é TIPO uma coisa") pra depois sapecar na minha cara a definição que, desculpem o trocadilho, me pareceu definitiva:

É um lugar onde a gente se comunica, se relaciona e se informa, TIPO um mundo paralelo que acontece junto da nossa vida na vida real.

Para minha filha, assim como para todos os outros Digital Natives, a internet não é mais sobre redes, computadores, servidores, traquitanas, dados ou nuvens. É sobre um lugar, acessado livremente, por onde, quando e como quiser. E de onde, paradoxal e inexoravelmente, não se sai mais. É sobre gente, sobre as pessoas. É uma nova visão, uma nova dimensão que redefine, muito além de nossas ultrapassadas convenções, conceitos como espaço, identidade, expressão, imagem, relacionamento e privacidade. 

Pois é. De volta à minha esdrúxula teoria, arrisco concluir que a internet, pelo menos de acordo com minhas antigas e limitadas definições – uma traquitana, uma novidade, um serviço ou uma simples ferramenta –, acabou mesmo. Enquanto Rede Mundial de Computadores, pode até mesmo estar perto do fim; vai virar cloud e acabar na mão de um sinistro supervilão caolho. Mas enquanto um lugar onde a gente se comunica, se relaciona e se informa, TIPO um mundo paralelo que acontece junto da nossa vida na vida real, a internet continua se reinventando, em sua busca permanente por novos caminhos, formatos e definições.

Essa foi quase. Estou devendo um almoço pro pessoal. Só que vai ser feijoada.